Diligência de Iniciante

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O ano era 2019, fazia pouco mais de um mês que eu havia pego a Carteira da OAB, estava empolgada, queria atuar o quanto antes, mas queria atuar em flagrante, em Delegacia, queria a aventura que eu sempre achei que fosse a atuação criminal. Rsrs.

Em uma pacata noite de quinta-feira um rapaz me procurou por telefone, queria que eu fosse até a cidade vizinha para impedir que transferissem a irmã dele para outra Delegacia longe daquela cidade.

A irmã em questão, estava presa há 3 dias, pela suposta prática de tráfico de drogas e seu irmão, até então muito preocupado, pareceu tentar me pagar adiantada a diligência, mas infelizmente não foi capaz, eis que segundo ele, estava com problemas no aplicativo do banco, mas caso eu fosse bem cedo pela manhã, me encontraria em frente a Delegacia e pagaria à vista diligência.

Eu me achei muito astuta em fazer questão que ele me pagasse antes de entrar na Delegacia, deixei claro inclusive, que somente entraria caso ele me pagasse integralmente o valor.

No dia seguinte, na manhã de sexta-feira, eu saí sozinha às 6h da manhã, com uma chuva que parecia um novo dilúvio, fui até a cidade, contente, animada e confiante, pois eu receberia antes de entrar na Delegacia e aí exerceria meu trabalho.

Ao chegar na frente da Delegacia, ainda não estava aberta, então esperei pouco e liguei para o meu cliente. Ele atendeu, disse que teve um imprevisto, mas que a mãe deles estava indo me encontrar para fazer o pagamento e na sequência me passou o contato dela. Liguei para a mãe do meu cliente, ela me atendeu, confirmou que estava indo e me pediu para esperá-la.

Eu esperei, ainda confiante, passaram os primeiros trinta minutos, minha confiança já começou a ficar abalada, minha empolgação já estava desconfiada e a animação já havia se transformado em nervosismo.

Tentei ligar novamente para o fulano e para sua mãe, não me atenderam, logo após os telefones já estavam desligados. Eu resolvi aguardar até abrir a Delegacia e entrar ver o que havia acontecido.

Nessa hora, meu pai, policial aposentado, que normalmente me acompanhava em atendimentos externos, mas naquele dia não pôde, me ligou, perguntou se havia dado tudo certo, eu já estava irritada com a situação e contei para ele.

Pouco tempo depois, chegou uma viatura da polícia militar, o policial bateu na janela do meu carro e perguntou se eu era a Dra. Thays, eu disse que sim, ele relatou que meu pai ligou para ele e que o fulano que havia me contratado estava preso na Delegacia, igualmente a sua mãe, a única parte que era realmente verdadeira dizia respeito a transferência da irmã, foi então que eu descobri que a família toda estava respondendo tráficos e que ninguém poderia me encontrar ali fora e principalmente, ninguém me pagaria. Eu simplesmente não sabia onde enterrar minha cara naquele momento.

Juntei a falta de vergonha que me sobrou e entrei na Delegacia, registrei o ocorrido, e voltei, debaixo de muita água para minha cidade, água da chuva e do choro.

Me lembro como se fosse ontem da revolta que fiquei, mas pouco tempo depois entendi que de fato é impossível fugir de algumas experiências, que essa loucura por mais desagradável que tenha sido, me capacitou, me deu jogo de cintura e foi fundamental para me ensinar lições práticas que hoje eu sei, e que se não fosse o fulano, talvez eu não soubesse.

A realidade sobre a advocacia criminal que tenho aprendido dia a dia é que nenhuma doutrina e jurisprudência nos preparam para situações como essas, a prática é muitas vezes desconfortável, mas é rica, valiosa e sinceramente, é dela que vêm essas boas histórias – sim, eu considero essa uma boa história – que podemos compartilhar.

Sobre a Autora

Thays Christina de Brito, graduada em Direito pela PUC/PR, pós graduada em Direito Penal e Processo Penal, pós-graduanda em Direito Tributário, advogada especialista em crimes contra a administração pública.

@thaysbritoadv – instagram.